Às 4 horas da manhã a cidade ainda dorme. A rua está deserta e escura, quando uma luz se acende numa casa do bairro Jardim Sulacap. Lilian levanta-se devagar, vai até o quarto da filha e pega a pequena Giovana no colo. Acaricia o bebê com um aperto no coração, sem conseguir evitar uma pontinha de culpa. Apesar dos seus 32 anos, é mãe de primeira viagem e, naquele momento, se dá conta de que, a partir daquele dia, essa separação será diária. Mas Giovana estará em boas mãos: ficará com o pai, que depois a levará para a casa da avó. Lilian põe Giovana de volta no berço e se arruma para sair. Já pronta, acorda o marido Thiago, de quem se despede com carinho, dá mais um beijo em Giovana e parte para seu destino. A mãe terá que ficar de lado um pouco agora para entrar em cena a profissional. Lílian é jornalista e está retornando ao trabalho após um longo período ausente para o nascimento de Giovana. A licença maternidade acabou e o trabalho a espera.

Lilian Alves Miranda Ribeiro Machado, conhecida no rádio apenas como Lilian Ribeiro, trabalha na rádio CBN (Central Brasileira de Notícias), situada no bairro da Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro, a cerca de 35 km de onde mora. Antes da licença ela apresentava o programa CBN Rio juntamente com a colega e amiga Carolina Morand. A carreira dela está em ascensão desde que entrou para o rádio e sua voz já é conhecida do público carioca.  Mas o caminho não foi fácil. Filha de imigrantes nordestinos vindos da Bahia, Lilian lembra de relatos da mãe sobre muitas dificuldades por que passaram. Não por acaso ela foi o primeiro membro da família a chegar à universidade. Pelo fato de não ter nenhum outro profissional de comunicação na família, acredita que essa trajetória de dificuldades, de alguma forma, a inspirou a escolher a profissão. “Claro que há muito de utopia nisso. Mas, para mim, ser jornalista tem muito a ver com ajudar a combater injustiças, questionar e buscar transformações”, declara ela.

E relembra sua trajetória com alegria. Iniciou os estudos ainda adolescente no curso de Eletrotécnica, no CEFET, mas nem chegou a trabalhar na profissão, pois percebeu que a área de “Exatas” não era sua vocação. Na escolha da faculdade ficou entre Jornalismo, Direito e Geografia, mas conta que sempre gostou de contar histórias, e isso foi decisivo para sua escolha. Eu já brincava de entrevistar pessoas desde quando tinha uns 5 anos”. Se formou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde também fez mestrado em Sociologia Urbana, no qual dissertou sobre O Comportamento de Passageiros e Ambulantes nos Trens Urbanos.

Desde a faculdade ela já trabalhava. Começou a carreira jornalística na TV Globo, como estagiária, atuando na produção do telejornal RJ-TV. Conta que veio para o rádio “meio que por acaso” e foi contratada como redatora do site. A gerente de jornalismo da época, Carolina Morand, acreditou que ela poderia atuar à frente do microfone e, mesmo sem ela ter muita experiência, designou-a para a apresentação do noticiário local, nas tardes da CBN. Tempos depois, passou à co-apresentação do CBN Rio, quando teve a própria Carolina como companheira de bancada por quase um ano.

Mas a vida não é só trabalho. Lilian é uma mulher de muitas paixões: a família, o marido, a filha, o trabalho, os amigos e também o time do Botafogo, não necessariamente nessa ordem. Conta que sua paixão pelo time de General Severiano é uma influência do pai. “E do Tulio Maravilha”, admite. E complementa: “Além do mais, você deve sabe: botafoguenses não escolhem, são escolhidos”. Se as provocações do futebol aborrecem essa fanática torcedora? Com generosidade, ela responde: “Meu amor pelo Botafogo não me impede de amar as pessoas”.


Francisco Valdemir dos Santos

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