lllEstar no palco ou em frente às câmeras dá a Victor Almeida, ator de 26 anos, o controle da situação. Algo que não acontecia, por exemplo, durante seu crescimento, por ter sofrido bullying diversas vezes. Tímido, era considerado diferente e estranho por algumas pessoas, mas hoje inverte papéis ao se expor constantemente nos palcos. O teatro lhe deu uma liberdade e uma sensação ainda desconhecida de pertencimento, mudando sua vida. “Apesar de ser tímido, escolhi uma profissão que me põe no spotlight”,diz.

O ator, formado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense, pensou em Engenharia como curso de graduação por já ter tido contato com a área de Exatas ao ter estudado no Ensino Médio na CEFET-RJ, instituição com formação voltada para matérias como Matemática e Física. Tinha maior interesse por cursos das áreas Humanas, como Direito, mas se considerou incapaz de passar em algo que era “novo” para ele. No meio da faculdade já tinha certeza de que não queria isso para sua vida. Foi então que, aos 20 anos, entrou para o teatro. Terminou a faculdade e hoje se dedica exclusivamente a algo que ama fazer.

 Essa troca profissional não foi pessoalmente difícil, principalmente por ter dividido todas as suas angústias com relação à faculdade com seus pais e ter sempre recebido deles o maior apoio para se dedicar a algo que o fizesse feliz. Considera que seus pais, sua irmã e sua namorada funcionam como pilares para se manter firme e não deixá-lo desistir, pois pensa nessa possibilidade diariamente, por causa das dificuldades que enfrenta na profissão. ‘’Acredito que meus pais, principalmente, acreditam mais em mim do que eu mesmo”.

Victor foi criado na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio de Janeiro, e tem esse lugar como referência, mas é morador de Jacarepaguá há quatro anos. É formado na Escola de Atores Wolf Maya, local que escolheu para sua formação por conta de seus ídolos, pois percebeu no trabalho deles o uso de uma técnica chamada ‘’método de atuação’’, criada pelo ator e diretor russo  Constantin Stanislavski. Ele decidiu então deixar a escola O Tablado, que também lhe deu uma ótima base, e se formou pela Wolf Maya.

Tem como companhia diária a Netflix e o cinema como uma de suas paixões. Um dos filmes que mais o marcou foi Poderoso Chefão, de 1972, que considera o melhor já feito. Suas maiores referências são atores da década de 50, como Marlon Brando, a quem cita constantemente. É o seu maior ídolo e foi um dos diversos atores que mudaram a forma de atuar mundialmente. Outro que admira é James Dean, que ocupa um espaço no seu quarto, com um quadro de seu rosto. Sua expressão corporal e personalidade dentro e fora de cena são veneradas por Victor. “Marlon Brando e James Dean são os maiores, os faixa preta”, comenta.

Em sua carreira de cinco anos como ator, teve como primeiro trabalho uma peça amadora chamada O Caso do vestido, do diretor Gilberto D’Alma, num texto inspirado em Carlos Drummond de Andrade, com referência de Nelson Rodrigues. E teve como marco na carreira a peça Sempre Nelson, com direção de Oscar Saraiva, pois apenas três dias antes da estreia, o diretor mudou todo seu texto e ele passou a ocupar um papel central. A peça foi no teatro Nathalia Timberg, com a casa quase cheia. Mesmo muito nervoso, se surpreendeu com aplausos de pé em cena aberta.

Victor considera a profissão de ator ingrata. “Você não tem uma escada hierárquica a seguir como em uma empresa. O que importa é quanto tempo você está ali fazendo aquilo, é o que vai te engrandecendo como profissional”, explica. O que o desmotiva é saber que ser ator no palco e ser reconhecido é indescritível, mas vê um total descrédito em relação à profissão. ‘’O que me deixa triste é saber ser ator não tem o mesmo valor social que uma profissão ‘’clássica’’, como medicina, por exemplo’’, lamenta.

No entanto, não abandona sua vocação, pois, apesar das dificuldades ,o lugar em que mais se sente vivo é em cima de um palco. “Estar ali é sempre estar fazendo algo pela primeira vez. Por mais que você faça a mesma peça todos os dias durante dez anos da sua vida, nunca uma noite vai ser como a outra”, explica. Ele acredita ser uma demonstração de coragem se expor ao público e arriscar sua integridade moral, a possibilidade de ser vaiado, ser odiado ou ser esquecido, o que é terrível para um ator.

 Hoje se define ator e criador, pois escreve peças, roteiros de séries e filmes. Tem como próximos projetos o início das gravações de uma minissérie que escreveu em parceria com sua namorada, também atriz e cineasta, e uma peça que escreveu e está em processo prematuro de produção. Considera mais fácil trabalhar com algo que é seu. Esse amor pela escrita vem da infância, pois se considerava uma criança muito avoada e sonhadora. Daí começou a inventar suas histórias.

“Como já disse Fernanda Montenegro, se você quer ser ator, desista, não siga por esse caminho, mas se você perceber que é como respirar e não dá para ficar sem, então insista”. Essas foram as palavras usadas por Victor para dar um conselho a quem está começando ou querendo começar na profissão. Ele complementa destacando a necessidade de estudar e ver o máximo de peças e filmes possíveis, criar objetivos para se engrandecer e ousar, e declara que a zona de conforto é a morte de um ator. “É uma linda jornada, mas muito difícil”.


Thayane Fernandes- 5º Período

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