Com uma fala eloquente e arrastada, ele conversa atento à norma culta da Língua Portuguesa. Bebendo cerveja ao lado dos dois filhos, aproveita a ocasião para passar um tempo com os gêmeos. Como se a fumaça do cigarro formasse imagens e o ajudasse a construir sua narrativa, revela sua estima pelo estilo de vida boêmio, seu amor pela música e as motivações para ser quem é hoje. Conhecido nos bairros de Bento Ribeiro e Oswaldo Cruz e pelas rodas de samba do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, o cantor e compositor Gallo BR (de Bento Ribeiro), aos 45 anos, está com o projeto de lançar entre os meses de dezembro e fevereiro um álbum, do qual será intérprete. Evanildo da Conceição Alves da Silva nunca ganhou muito dinheiro e nem obteve fama por intermédio da música devido às suas condições de vida e às dificuldades que o ramo traz. “Vivo para a música, não dela”, a frase oficial de quem jamais teve visibilidade como artista, pode mudar.

O dom de Gallo – apelido não vem da ave, mas sim do peixe que gostava de comer quando criança – para a arte foi descoberto pouco antes dos 30 anos, após perder o pai no fim da década de 1990. Antes disso, durante a infância, juventude e parte da vida adulta, ele passou por experiências que não definiram de imediato seu futuro na música. O pai dele, Lino Alves, era funcionário público federal e foi o esteio da família negra e humilde. Queria que os quatro filhos tivessem uma educação de qualidade e, por isso, pagava-lhes escola particular. Gallo, ao ver o esforço do pai e da mãe Durvalina Alves, empregada doméstica, para criá-los, resolveu ajudar de alguma maneira. Então, passou a tomar conta de carros para ganhar uns trocados e custear suas diversões de criança. Mas o que não custava muito era sambar. Ele disputava com o amigo Jansinho quem tinha mais samba no pé. Gallo sempre perdia.

Brincadeiras à parte, ele precisava estudar, mas teve que começar a trabalhar formalmente logo ainda menor de idade. Atuou no setor administrativo de grandes empresas, como Globosat – nesta por duas vezes – e serviu à Marinha do Brasil. Nesse meio tempo a mãe dele morreu, porém não lembra direito como lidou com a perda. Entre o fim da adolescência e o início da fase adulta, o jovem não conseguiu conciliar emprego e estudos, além de não ter se adaptado às escolas nas quais estudou. Isso o levou a terminar o Ensino Médio Técnico em Administração – prestou vestibular para a área mais tarde – aos 22 anos, numa instituição do bairro, à qual finalmente conseguiu se ajustar. Foi graças a esse colégio que conheceu Cristiane de Andrade, a futura mãe de seus filhos, em um bar próximo. Foi pai aos 24 anos, em junho de 1995.

O relacionamento dos dois durou por volta de seis anos, separação vai e vem. No início, moraram em Bento Ribeiro, mas tempos depois se mudaram para Guadalupe, onde Gallo, enquanto trabalhava pela segunda vez na Globosat, começou a descobrir seu dom para a música. Passou a compor inspirado por sua vida pessoal e pelo cotidiano das pessoas. No bairro, um vizinho afinava seu cavaquinho e afirmava que ele ainda “teria um lugar ao sol”. O fim de sua relação com Cristiane se deu quando eles moravam em Coelho Neto, já desempregado e sem condições de quitar o apartamento. Os gêmeos, Jefferson e Jonnathan Alves, ficaram com a mãe e avó materna, e Gallo foi morar com a irmã em Oswaldo Cruz por volta de 2003.

Sempre fez o possível para estar com os filhos nos fins de semana. Sem emprego durante um tempo, pôde se dedicar à composição de músicas, sobretudo sambas. Estudava partituras e registrava suas obras em um simples gravador. Com a sobrinha, Ingridy Alves, e filhos sentados ao seu redor, cantava suas composições e usava o cavaquinho para tocar suas melodias. A que mais marcou as crianças à época foi “Vida Bandida”, que representava o momento que o músico vivia e os sentimentos dele. Em trechos, ele se declara “guerreiro nato” e como alguém que não tem “essa de se entregar, sem pelo menos tentar”.

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Gallo BR canta composições de ícones do samba de raiz em eventos dos quais participa como cantor. [Foto: Jefferson Alves].

E não desistiu de aprender a arte cada vez mais. Investiu em sua carreira de músico. Gallo criou em 2004 o grupo Família Raiz junto com dez pessoas, entre elas Bira do Império e Timbira da Portela. O conjunto foi crescendo pelo subúrbio da cidade e participou do Festival A Caminho da Fama, em que os organizadores fariam um álbum com as melhores músicas do evento. O grupo Família Raiz venceu com a música Santa Ceia – composição de Gallo, que se tornou intérprete do conjunto. A partir daí, surgiram convites para tocar em mais locais e eventos, como os da “Ala dos Cabelos Brancos” – marcante para o grupo –, da Escola de Samba Império Serrano. A ligação de Gallo, portelense, com o carnaval o levou a participar de concursos de sambas-enredo – escreveu para Renascer de Jacarepaguá e para a Vila Isabel, porém não venceu nenhuma vez.

Com o reconhecimento do seu trabalho como compositor e também como intérprete de um grupo de samba, Gallo sugeriu aos amigos dar um salto na carreira para que se tornassem mais profissionais. Os integrantes não tinham o grupo Família Raiz como principal fonte de renda. “Os músicos que cantam em bares e botequins são mal remunerados, e falta adesão da comunidade à manifestação cultural do samba no subúrbio”, aponta Gallo. Ele sugeriu, portanto, que gravassem um álbum independente. “Vivendo de Teimoso” foi custeado com o dinheiro que recebiam das apresentações. O intérprete, que compôs boa parte das músicas, não se recorda exatamente de quantas cópias o disco vendeu, mas crê que tiveram bons resultados. Apesar disso, ele saiu do grupo após três anos como vocalista (2004-2007). Para ele, seus companheiros não entendiam as propostas de crescimento que apresentava, e faltaram-lhes ambição e coragem.

No entanto, o cantor não ficou muito tempo sem se envolver em projetos ligados ao samba. Numa conversa de bar em 2011, criava e cantarolava uma música junto aos amigos que culminou na ideia de montar um bloco de carnaval de rua ali em Bento Ribeiro.  “A composição era bem engraçada e sugestiva, motivo pelo qual batizamos o bloco de Peru Crescido”. No primeiro desfile, o “Peru” estava tão empolgado que nem autorização tinha dos órgãos competentes para sair à rua. Entretanto, no segundo desfile, ele entrou em ação com segurança. O portelense foi o responsável pelo bloco até o “término” dele – por divergências internas –, depois de brincarem quatro carnavais em três anos. “O nosso bloco era muito bacana e conhecido no bairro. Até saímos em matérias de jornais e de rádio. Hoje, não digo que tenha terminado, mas está guardado. Como Fênix, ele está esperando o seu renascimento”, declara, com fé.

Enquanto o “Peru” não volta a crescer, o músico está ativo – agora como “Gallo BR” – fomentando a cultura carioca em outros quesitos, vivendo sua alma boêmia entre parceiros de versos e tons. “Sou andarilho da música. Canto samba aqui e acolá”, explica. Tanto que participa de eventos como o Samba Fast Show, é integrante do movimento Samba no Buraco do Galo, de Oswaldo Cruz, e toca também na Pedra do Sal. Além de cantoria, batucada e bebida, não faltam os bons papos, já que ele está sempre rodeado de amigos da vida e companheiros da música.

 Um deles é Carlos MG (Magno, seu sobrenome), de 68 anos, músico e professor aposentado, que conhece o sambista desde quando ele nasceu e tem fortes convicções a respeito das habilidades e personalidade dele. “Como músico, posso afirmar, sem  correr o risco de errar, que é talentoso. Fizemos diversas composições musicais juntos. Indiscutivelmente, ele é possuidor  de um comportamento exemplar em todos os aspectos. É, sobretudo, meu grande amigo, além de prestativo e inteligente”, revela Carlos MG.

Sua inteligência, de fato, não é negada por quem conhece esse boêmio de Bento Ribeiro e nem por seu currículo lattes. Depois de vinte anos sem estudar, entrou para a faculdade e em 2015 formou-se pedagogo com bolsa integral pela Universidade Veiga de Almeida (UVA). Agora, faz pós-graduação em Gestão Empresarial na Universidade Estácio de Sá – embora trabalhe como arquivista em uma drogaria. Para ele, “informação nunca é demais e esta precisa ser transformada em conhecimento”. Como negro e pedagogo, Gallo BR acredita que a superação de preconceitos institucionalizados vem do trabalho e do estudo. “Com educação de qualidade os nossos problemas sociais diminuirão. Teremos mais cidadãos críticos e menos marginalização de negros e pardos”.

O pedagogo está passando por uma nova fase após a faculdade e se dando muito bem, de acordo com o amigo dele Ronaldinho do Banjo, 56 anos, funcionário público e estudante do Conservatório Brasileiro de Música. Segundo ele, apesar da vida muito difícil, o Gallo BR sempre quis crescer profissionalmente para dar uma condição de vida melhor para a família. “É o que todo pai deseja. Voltou a estudar ao ter oportunidade e se formou graças ao esforço dele. É alguém muito batalhador e do bem, e é um privilégio ser amigo desse cara”, garante Ronaldinho do Banjo, que o conheceu em uma roda de samba em Bento Ribeiro.

Nos últimos tempos, não é só na esfera acadêmica que a vida de Gallo BR tem se transformado significativamente. No campo musical, planeja ser lançado nos próximos meses como intérprete de um álbum que contará com a participação de compositores campeões de sambas-enredo. A ideia é lançar um novo nome na indústria musical e na mídia que tenha por essência o samba de raiz, que não está sendo tocado por aqueles que têm visibilidade. O nome artístico de Evanildo poderá até mudar. O projeto terá envolvidas equipes de produção, marketing, figurinistas e músicos. Não há data ainda de lançamento do disco, entretanto a expectativa é que seja realizado no Teatro Rival, na Cinelândia, Centro do Rio. Depois de mais de quatro décadas de vida, a esperança é que as melhores câmeras e um grande público se voltem para Gallo BR – que talvez não seja mais somente de Bento Ribeiro.


Jefferson Alves- 5º Período

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